Primeiro goleiro da seleção, Marcos de Mendonça virou referência na posição
Bárbara Heliodora, crítica de teatro e filha do jogador, revela os bastidores da carreira do arqueiro, apaixonado por História do Brasil e pelo Fluminense
Em meio a craques populares como Friedenreich e Neco, um goleiro conseguiu se consagrar como um dos queridinhos da torcida brasileira no título sul-americano de 1919. Marcos Carneiro de Mendonça foi o primeiro da história a defender a meta da seleção e cumpriu o seu papel com verdadeira maestria, já que naquele ano foi o menos vazado da competição, com três gols sofridos. Sua fama se estenderia por outras gerações, como conta Bárbara Heliodora, famosa crítica de teatro e filha do ex-jogador.
- Houve uma história muito emocionante para mim. Na final da Copa de 1950, a família estava toda lá presente acompanhando a partida nas cadeiras. No fim do jogo foi aquele silêncio horroroso, inesquecível, uma coisa angustiante depois do 2 a 1 do Uruguai. Quando saíamos do Maracanã, um senhor parou repentinamente diante do meu pai e disse que se ele estivesse lá, o Brasil não perderia. Haviam passados 30 anos e o cara ainda se lembrava de como ele agarrava – narra, em entrevista exclusiva ao GLOBOESPORTE.COM.
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Confira a história completa dos acontecimentos que marcaram a conquista da seleção
O episódio retrata bem a importância que Marcos de Mendonça teve para a consolidação do futebol no país. Talvez o senhor que o abordara em 1950 ainda tivesse viva em sua memória a lembrança do histórico duelo entre Brasil e Uruguai na final do Sul-Americano de 1919. Friedenreich foi aclamado como o autor do gol do título, mas o goleiro teve papel importantíssimo para segurar o poderoso ataque adversário durante os desgastantes 150 minutos de jogo.
O futebol como uma opção de vida
Marcos foi um dos grandes entusiastas do futebol logo que ele foi lançado. Além de se destacar na seleção brasileira, participou do primeiro tricampeonato carioca do Fluminense entre 1917 e 1919, time que teria sempre um lugar cativo em seu coração. Sua filha Bárbara, hoje com 85 anos, revela o motivo que o fez escolher a ingrata posição de goleiro.
- Ele teve uma pleurisia (inflamação que afeta os pulmões) aos 14 ou 15 anos. Era uma coisa complicada. Quando surgiu a moda do futebol, ele perguntou ao tio dele, que era médico, se ele poderia jogar. O tio disse que havia uma única maneira de praticar o esporte sem correr. A solução era ser goleiro. A altura acabou ajudando também, já que ele tinha 1,87m.
O arqueiro teve em seu currículo futebolístico os títulos do Carioca de 1917 pelo América, e da Copa Roca de 14 e do Sul-Americano de 22 pela seleção. Quando abandonou o futebol, trabalhou durante um tempo em uma usina siderúrgica. Após a aposentadoria, pôde dedicar sua vida a pesquisar e escrever livros sobre a história do Brasil. De personagem, passara a ser um analista da memória brasileira.
- Ele é parte da história de um esporte que ficou muito popular. Participou de algo que teve um alcance muito grande. Mesmo aposentado, sempre sentava em frente a televisão para acompanhar o Fluminense. Perder ou vencer não incomodava tanto. Considerava imperdoável se o time jogasse mal. Quando acontecia isso, resmungava "assim não dá" e saía da sala imediatamente - conta Bárbara.
E como bom tricolor, Marcos de Mendonça fazia questão de vencer o Flamengo.
- Com a minha mãe aconteceu uma coisa muito divertida. Uma mulher reconheceu o sobrenome dela em uma assinatura e perguntou se ela era esposa do Marcos. Com a confirmação da pergunta, disse: "A senhora não sabe como ele pegava". Minha mãe retrucou: "Como não? Namorei, noivei, casei com ele." A mulher então completou: "Não! Eu sou Flamengo. Eu é que sei o quanto ele pegava" – encerra Heliodora, divertindo-se.
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