domingo, 19 de julho de 2009

Pra eternidade: farra dos ingressos II

'O clima no clube é pesado, sim. É uma guerra de vaidades', diz superintendente

Carlos Henrique Corrêa dá razão a lateral Leandro, ex-Flu, e afirma que conselheiros se preocupam mais com seus 'grupelhos' do que com o time

Caio Barbosa, Emiliano Tolivia e Marcel Lins Rio de Janeiro


Que o clima nas Laranjeiras anda tão aquecido quanto o global não é novidade. Enquanto a política ferve em ano que sequer é eleitoral, o Fluminense despenca na tabela do Brasileirão, ocupando um dos lugares da zona do rebaixamento. Além de conflitos internos entre patrocinador e presidência, o superintendente geral, Carlos Henrique Corrêa, revela que até uma credencial de estacionamento no Maracanã é motivo para rusgas no clube. Para completar o cenário, nesta quinta-feira, o Conselho Deliberativo se reúne para discutir a "Farra dos ingressos" na final da Libertadores de 2008, vexame ao qual Corrêa tem seu nome diretamente ligado.

No último domingo, o lateral Leandro, atualmente no Vitória, disse ao "Esporte Espetacular" que o ambiente no Tricolor é tenso. Para o dirigente, tal convulsão no Tricolor de fato chega às quatro linhas. E também às arquibancadas. Junto à crise no futebol, o clube cortou definitivamente os ingressos para as torcidas organizadas logo após a recente invasão ao gramado e agressão ao volante Diguinho. 


Carlos Henrique Corrêa com documentos

Carlos Henrique Corrêa nega que tenha recebido ameaças diretas na época em que era responsável pelo repasse de ingressos às organizadas, embora reconheça algumas tácitas. Porém, garante que se mantém distante dessa relação há sete anos por um "desgaste natural". Confira a entrevista abaixo e assista ao vídeo acima:


GLOBOESPORTE.COM: O que pode acontecer na reunião de quinta-feira no Conselho Deliberativo do Fluminense, já que o assunto é a venda antecipada para a final da Libertadores 2008, assunto que está diretamente ligado ao senhor?
Carlos Henrique Corrêa: Pode acontecer mais difamação. Estão articulando para que sócios e imprensa não participem. Logo, eu, Cristiane (Rodrigues, assistente de finanças) e outros não poderemos entrar se assim for. Não vejo o que pode ter de novo. Com o Ministério Público e a polícia está tudo encaminhado. A não ser tumultuar o próprio Fluminense, que já está tão tumultuado. O Fluminense perde sempre pra ele mesmo. Há anos de ranço, ódio e brigas internas, cada um olha para o seu umbigo e esquece da instituição.

Isso se reflete em campo?
Em tudo. Você vai a um lugar onde está todo mundo aborrecido, odiando um ao outro, não cresce nada.

No "Esporte Espetacular", o lateral Leandro, agora no Vitória, citou isso, que o clima no clube é muito pesado...
E é pesado. As pessoas não estão lá pra construir. É uma guerra de vaidades, as pessoas não chegam lá e vestem a camisa do Fluminense para entrar no clube. Cada um veste a camisa do seu grupelho. E brigam pelos seus interesses, que às vezes são tão mesquinhos. Um reconhecimento qualquer. O cara não recebe o estacionamento do Maracanã, é um caos. "Por que fulano está na especial? Quem deu?". E nem imaginam que o outro possa tê-lo comprado. Em vez de se preocupar se o time está bem, se o clube vai bem internamente, querem saber quem ganhou ingresso, quem não ganhou estacionamento. E isso cria um clima de tensão geral. 

 Sobre clima de tensão, há pouco tempo houve invasão de gramado por parte de torcidas organizadas do Fluminense, que perderam o direito a ingressos gratuitos. Qual a sua opinião sobre essa decisão?

Minha opinião é como tricolor, pois não é decisão minha. Tudo tem um custo. Antigamente, as torcidas recebiam duas credenciais, mas como tinham um perfil de classe média, mais da Zona Sul, levantavam recursos. Hoje, ninguém contribui. O ingresso é o mecanismo para isso. Tem que ter uma forma de ajuda, mas não sei qual. Talvez ajudar com bandeiras, rojões, manutenção de instrumentos. O clube vê as organizadas como algo importante. Você vai a jogos distantes, tem meia-dúzia e essas pessoas são eles. Hoje, a Legião Tricolor tem esse perfil que eu falei. Quando precisam, fazem campanha e arrecadam. As organizadas precisam trabalhar sua imagem. São os maus que acabam virando exemplo. A maioria dos integrantes não é assim.

Quem faz o intermédio com as torcidas organizadas para a entrega dos ingressos?
O Carlos Henrique Ferreira, vice de Finanças. Há mais de sete anos que não tenho essa tarefa. Deixei claro que não queria fazer mais isso.

Por quê?
É desgastante em um clube sem dinheiro. A organizada faz um pedido, justo, de dinheiro para alugar um ônibus. Ao mesmo tempo, você está com o salário mínimo de algum funcionário atrasado. O que faz? Apoiar o time é importante, pagar o funcionário também. Então preferi passar isso para o futebol. Quando o Horcades assumiu, eu voltei a ficar apenas com as cortesias. 

Você já sofreu alguma ameaça?
Olha, tem sempre o comentário de fulano falou isso e tal. Mas de concreto, de "vou te pegar ali", não. É o desgaste do relacionamento, natural.

Sobre ingressos, as torcidas organizadas contestam o número de 4.450 entradas cedidas na final da Libertadores. E dizem ainda que, até esse jogo, eles assinavam um recibo de ingressos com valor de entrada inteira, mas recebiam meia. Você diz que não faz o intermédio desses bilhetes. Mas não é no mínimo estranho?
Esse número está no depoimento da Cristiane e do Carlos Henrique Ferreira, tanto na Decon (Defesa do Consumidor) como na polícia, acredito que eles tenham esses documentos. Se isso acontece, realmente é estranho. Mas tem que ver com quem entrega. O problema do disse-me-disse é esse. Tudo tem que ter documento. Creio que os recibos estejam lá. Mas não posso afirmar porque isso eu não sei, não vi.

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